Carlos Eduardo Lins da Silva afirma em sua coluna de domingo (17/05) na “Folha de S.Paulo” que os “Jornais têm recordes de leitores”. Seria mais precisa dizer: “considerando o papel e a internet”. O ombudsman da Folha também faz referência a dados do respeitado estudo “The State of The Media Newspapers” que, segundo ele, mostraria que o público não rejeita o modelo dos jornais tradicionais. Diz ainda que “o desafio dos jornais não é a audiência, e sim seu modelo econômico”. Quem é apresentado ao assunto pode ficar com a impressão de que tudo está o melhor possível na terra dos jornais de papel. Por essa razão, acho pertinente fazer algumas observações. Lins da Silva é um dos mais respeitados jornalistas brasileiros e um dos mais preparados para falar sobre mídia. Conhece o tema na teoria e na prática, o que no Brasil é raro. Acredito, no entanto, que assim como outros profissionais que fizeram carreiras brilhantes na mídia impressa, ele procura ver o lado meio cheio de um copo que já trincou.
O argumento que tenta separar o modelo de negócios das editoras de jornais de seu produto, os jornais, é curioso. Seus defensores dizem que as pessoas amam os jornais tradicionais, mas afirmam que o verdadeiro problema estaria no modelo econômico das empresas que os produzem. Ou seja, muitas empresas já não conseguem obter recursos para sobreviver vendendo jornais de papel. Nos Estados Unidoos, várias já fecharam, outras reduziram a operação e muitas lutam para encontrar uma fórmula. Mas será possível separar o modelo de negócios do produto? As pessoas amam Ferraris, Mercedes e Porsches, mas o modelo de negócio das empresas que fabricam esses produtos está baseado em preços muito elevados por cada veículo o que reduz o número relativo de proprietários. As pessoas amariam ainda mais esses carros se pudessem comprá-los pela metade do preço. Porém, provavelmente as fábricas quebrariam e alguém poderia dizer: “as pessoas amam suas Ferraris, o problema está no modelo de negócio da montadora….” Empresas como a editora do “The New York Times” produzem Ferraris, mas são obrigados a vender com desconto um produto que, para piorar, os leitores encontram de graça na internet.
Sobre a circulação, o fato indiscutível é que a idústria de jornais enfrenta uma de suas maiores crises em todos os tempos. Como observa Lins da Silva, a circulação do “Washington Post”, um dos mais importantes diários americanos, caiu de 786 mil exemplares para 665 mil exemplares em dez anos. Poucas publicações americanas têm números melhores para exibir. E segundo o relatório The State of The Media Newspapers, recentemente as perdas se aceleraram, como diz o seguinte trecho extraído do estudo: “a queda na circulação de jornais impressos, que começou a acelerar de forma alarmamente a partir de 2003 foi ainda mais grave em 2008” (confira o gráfico abaixo). Finalmente, bons jornais como o The New York Times e a Folha de S.Paulo são produzidos por empresas privadas indepentendes que precisam remunerar seus acionistas para justificar o risco do negócio. Atrair multidões não basta.
Circulação dos jornais aos domingos e dias de semana, nos Estados Unidos, nos últimos seis meses.
Fonte: The State of The Media Newspapers

